MORRE GAIARSA, AOS 90 ANOS

foto gaiarsaO psicanalista José Ângelo Gaiarsa morreu dormindo às 5h da madrugada do dia 16 de Outubro de 2010. Aos 90 anos, cheio de energia e vontade de ver o ser humano aprender a relacionar-se. Quem nos dera merecer uma morte assim…

Vai abaixo um dos seus artigos. Não precisamos seguir ao pé da letra, mas merece nossa reflexão, melhor que seguir a vida sem pensar…

O     AMOR

O MAIS PERSEGUIDO E MAL FALADO DOS SENTIMENTOS  HUMANOS

Fala-se muito como se o amor fosse não só o melhor dos sentimentos humanos (o que pode até ser verdade), mas como se ele estivesse sempre muito presente e atuante entre as pessoas.

Baseado no modelo altamente idealizado e impossível do amor matrimonial – serei tudo para você, exclusivamente para você a vida toda; em nome da Sagrada Família, todos os demais amores são impiedosamente condenados, perseguidos, fofocados, todos vigiando a todos para que todos não façam o que todos gostariam de fazer !

Aceitamos sem reflexão, baseados no modelo matrimonial, que o amor é naturalmente possessivo, ciumento, exclusivista, isto é, um amor impede ou proíbe qualquer outro e amar as duas pessoas ao mesmo tempo é tido como uma perversão afetiva incompreensível. Esquecem todos que se eu tiver dois ou três filhos, espera-se que ame aos 3, afora minha mulher, minha mãe e pai, aos pais de minha mulher, a outros parentes … Todos dizem: mas isso é diferente! Claro que é diferente. Mas amar a duas mulheres diferentes- não da família – também é diferente para cada uma delas.

Essa é outra consequência maléfica do casamento: admite-se que se eu amar a duas pessoas em vez de uma, estarei dividindo minha capacidade de amar em  duas. Posso estar dividindo o património em dois – isso sim. Mas não vamos confundir herança com amor!

Há muita verdade nesse erro! Casamento visa segurança e sobrevivência afim de compreender melhor estas complicações amorosas, visa acumulo de património, tido como ótimo para os filhos; liga-se pouco e mal ao amor ou a felicidade individual.

Examinaremos a função social do casamento, afim de compreender melhor estas proibições amorosas, bem mais ligadas ao conservadorismo dos costumes, do que aos sentimentos pessoais. Compreenderemos assim esse fato paradoxal: em família há autorização para a agressão !

Mostrar-se-á pouco a pouco o quanto o amor atual, conveniente para a organização social autoritária, tem pouco a ver com o amor corno força de transformação pessoal.

Esse o ponto central: o amor não  existe para o  casamento mas para o desenvolvimento das pessoas, seja dos amantes, dos pais ou dos filhos.

Mostraremos enfim que todas as proibições amorosas tem como objetivo manter as estruturas sociais autoritárias.

Por isso o amor é o mais perseguido e mal falado dos sentimentos humanos.